Ela passa a mão no seu cabelo enquanto você chora, até
mesmo quando o problema é ela. Fica repetindo coisas doces e amáveis o tempo
todo. Você acredita porque a mentira é mais suave do que a verdade. Acredita
porque essa doçura é rara demais para ser desperdiçada. Você diz que o quer
para sempre, mas ela já está pensando em qual vai ser a da próxima semana. A
próxima garota que será apenas a próxima que irá sofrer porque, no final, ela vai acabar voltando para você. Todo domingo ela vai lhe ligar com a voz
embriagada de quem acabou de acordar às três da tarde – há essa hora, você já
vai ter feito mais do que ela fez o mês todo. E vai começar a falar sobre como
se arrepende por ter feito de novo aquilo que jurou que jamais faria. Vai pedir
para voltar porque no final do dia nenhum cabelo tem o cheiro melhor que o seu.
E vai reclamar que essas garotas de hoje em dia não gostam de pegar na mão em
público. Mas você gosta. E é por isso que ela gosta de você. Porque ela também
faz parte dessa geração-vergonha que não curte pegar na mão durante o cinema,
que vai logo para os amassos e o qual-seu-telefone-para-que-eu-nunca-ligue-por-engano.
Mas você, não. Você pega na mão durante o filme, a praça, o jantar, o
café-da-manhã… Você ama pegar na mão e olhar nos olhos. E ficar horas olhando
nos olhos para ver se consegue tirar mais um pouquinho da alma dela. Se
consegue desvendar mais um pedacinho desse enigma. E, assim que percebe que
está conseguindo, ela vai embora outra vez. Porque nada a apavora mais do que
alguém com a capacidade de decifrar seus medos. E você sabe. Você sabe como ela odeia escuro e tem pavor da solidão. Sabe como ela grita para calar o barulho
mental que ela possui. Sabe como ela odeia partir tanto quanto você odeia vê-la ir. Sabe, mas não entende. E por isso jura que não vai atender a ligação no
domingo, mesmo sabendo (e não entendendo o porquê) que você vai sorrir quando o
nome dela aparecer na tela. É frustrante. Você tem doutorado em defesa pessoal,
é PhD em não se deixar abalar por nada. E se derrete toda vez que ela diz seu
nome. Por quê? Porque o amor é assim. Tem tudo para dar errado. Mas, ainda assim, o som da
voz dela continua lhe acalmando. Por quê? Porque o beijo dela ainda é mais
viciante que qualquer livro que você já tenha lido. Porque os braços dela ainda
são o melhor esconderijo do mundo. Vocês não têm nada em comum. Não pode ser amor, certo? Errado. Não deveria ser. Mas isso não
impede nada. Não enquanto ela continuar ligando todos os domingos para dizer
que sente a sua falta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário